Mulher, jovem e nordestina: conheça a primeira presidente da história da Conaje

PorVanessa Ricarte

19 jul 2021
Foto: divulgação

Maria Brasil é comunicadora, inteligente e sabe o peso da representatividade de seu cargo para inspirar outras mulheres no caminho da liderança


Fiquei alguns segundos aguardando a assessora de imprensa Maricy Celebroni fazer a intermediação da entrevista por videoconferência, de Brasília, com a presidente da Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), a primeira mulher de sua história, eleita no final do ano passado, a liderar a instituição.

A entidade, que tem 20 anos de existência, é dotada de grande influência ao conduzir questões de âmbito internacional. Representante do Brasil no G20 – grupo formado por países com as mais expressivas economias do mundo, a Conaje tem participação deliberativa na FIJE (Federação Ibero-Americana de Jovens Empresários) e também no Bloco Mercosul.

Confesso que, como jornalista, não tinha feito o dever de casa antes da entrevista. Deveria ter pesquisado para saber quem era a Maria Brasil. Entretanto, teve um lado bom nessa mea culpa: foi ótimo me manter no escuro, pois fui surpreendida positivamente ao conhecer de fato quem era aquela jovem mulher de pensamentos tão complexos por trás de uma posição tão alta de liderança nacional.

Mulher, jovem, nordestina e presidente de uma entidade nacional

Àquela altura, instantes antes de começarmos a entrevista, eu esperava que aparecesse na tela uma senhora de meia idade (observe aqui o impacto da minha visão contaminada pelo preconceito estrutural, já que eu também poderia ser considerada pelos outros uma senhora de meia idade, aos 39 anos, mas de maneira alguma me vejo como tal).

Em pouco mais de 40 minutos de entrevista, entendi o porquê dela ter chegado onde chegou. Natural da Bahia, Maria tem 29 anos e é especialista em Comunicação Estratégica e Gestão de Marcas pela UFBA. Estudou também na Universidad Europea de Madrid, Instituto Europeu de Design e tem cursos de especialização pela ESPM e New York University.

Conversamos inicialmente sobre a importância da Conaje ao estimular o empreendedorismo dos jovens em todo o país. Com 36 mil associados, a Conaje é, sem sombra de dúvidas, uma potência no mundo empresarial. Em seguida, relembramos a sua trajetória como sócia de uma agência antes de se tornar atualmente a CEO da Essence Branding, agência de consultoria voltada à construção de marca, imagem e autoridade de forma humanizada.

“Precisamos atuar com propósitos claros, respeitando o timing que o cliente tem. Por isso me voltei ao capitalismo consciente, que tem uma visão mais humana dos processos empresariais. Como sócia de uma agência anterior, não tinha o resultado que esperava. Hoje, a minha empresa de branding é 100% feminina porque a cultura que implementei ali está alinhada aos assuntos do nosso universo, o que deixaria os homens desconfortáveis no nosso meio”, explica.

O poder do networking

Maria Brasil recorda que, antes de fazer parte da Conaje, uma amiga havia lhe convidado a participar de um café que reuniu jovens empreendedores na Bahia. Na ocasião, seu jeito comunicativo e a bagagem intelectual que já carregava abriu portas para que, posteriormente, se tornasse conselheira da instituição. 

Entusiasta do associativismo, Maria Brasil vem de uma família de empreendedores. Seu pai, sua mãe e sua irmã são empresários. Por isso, aos 23/24 anos, decidiu enveredar também no mundo empresarial. A ascensão de sua carreira, segundo ela, foi porque mesmo tendo enfrentado inúmeros casos de preconceito e machismo, ela tinha a certeza de que nada disso a impediria de chegar aonde quisesse.

Empreendedorismo e empoderamento feminino

Por ser mulher e imbuída de um cargo de grande representatividade, Maria Brasil tem uma visão clara da importância da mulher empresária na sociedade. “A presença das mulheres em ambientes predominantemente masculinos causa uma profunda transformação da sociedade”, defende.

Para a presidente da Conaje, a mulher que empreende busca autonomia e independência. “Sabemos que nos empregos, muitas sofrem assédio sexual e moral. Outras milhares estão aprisionadas em relacionamentos tóxicos e abusivos por conta de uma dependência financeira do parceiro. Empreender é uma saída muito promissora, pois assim, elas podem ser donas do próprio nariz”, enfatiza.

Maria Brasil tem consciência que a representatividade de seu cargo é inspiração para o meio empresarial feminino. “Minha felicidade é quando vejo uma mulher olhando para mim, nordestina, tendo a certeza de que também é capaz de enfrentar uma sala repleta de homens e ser ouvida, respeitada. Ela pensa: se ela pode eu posso também”. 

Quebra de crenças limitantes

Por fim, pergunto a Maria Brasil o que, segundo a sua opinião, ainda impede a mulher de empreender. Para a presidente da Conaje, o medo do fracasso é o de menos, já que esta seria uma etapa posterior à autossabotagem.

“Infelizmente, muitas mulheres ainda não acreditam na própria capacidade de vencer. É a Síndrome da Impostora que faz com que a mulher não consiga se enxergar como empreendedora. O bloqueio é ela mesma”, afirma categoricamente.

Entre situações de mansplaining e manterrupt (quando o homem explica coisas óbvias ou interrompe a fala de uma mulher) Maria Brasil não se abala e faz valer a sua voz. Seu pioneirismo representa a certeza de que é por meio de uma mulher que o caminho se abre também para outras mulheres.

Vanessa Ricarte

Editora-chefe do portal O MKT Delas! Especialista em jornalismo empresarial e institucional. Criadora e curadora de conteúdo (content marketing)

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