Frases que me cansam: você não tem força de vontade

PorOpinião

18 maio 2021

“A força de vontade é como um músculo, que fica cansado e precisa de repouso. É incrivelmente poderosa, mas não tem resistência.” Gary Keller e Jay Papasan

Olá!

Como já te contei anteriormente as frases que me cansam são normalmente partes de discursos que ouvimos a torto e a direito e que, muitas vezes fora de contexto, nos são servidas como verdades inquestionáveis. Aqui tento desmistificar algumas delas a partir do olhar do Slow Movement e da consequente produtividade saudável. Comecei, inclusive, desabafando sobre meu cansaço com um dos mantras do movimento: Desacelere!

Hoje quero falar sobre a força de vontade, mas antes vamos voltar um passo, relembrando o fato de que a aceleração que vivemos atualmente é um dos muitos problemas estruturais que nos permeiam. Coletivamente vivemos mais estressados, mais sedentários, mais viciados em álcool, analgésicos e várias outras drogas, nos alimentamos lamentavelmente, dormimos pouco ou mal e apesar de talvez podermos compreender racionalmente que a culpa não é necessariamente nossa, ainda assim nos sentimos terrivelmente culpados. O que quer dizer que, enquanto não vivermos todos em núcleos que se mobilizem amplamente para um contra-ataque como, por exemplo, as cidades japonesas de Iwate ou Kakegawa, estaremos providenciando pouco mais que uma suave dieta para a privatização do estresse.

Kakegawa tem, há quase 20 anos, uma declaração que diz que: “no fim do século 20 o Japão valorizou e perseguiu a ‘rápida, barata, conveniente e eficiente’ vida que nos trouxe prosperidade econômica. Entretanto, isso também causou problemas como a desumanização, males sociais e poluição do meio ambiente. Nós gostaríamos de seguir em frente como o slogan da Slow Life para conquistar ‘confortáveis, relaxados e desacelerados’ estilos de vida, e mudar de uma sociedade de produção e consumo em massa para uma sociedade que não é frenética e valoriza o que é importante ao nosso coração”. Mais relevante que palavras no papel, contudo, é como governo e iniciativa privada se articulam para, estrategicamente unidos, caminharem em direção à desaceleração coletiva, alinhavando questões que vão do transporte à educação, da indústria ao consumo final. Ainda que em pequena escala, uma tremenda evolução para um país que, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, possui uma das taxas de suicídio mais elevadas do mundo. E uma palavra própria para designar a morte pelo excesso de trabalho: karoshi.

Tá, mas eu não vivo em Iwate ou Kakegawa, não posso me mudar para uma das poucas outras Slow Cities, meu chefe é um babaca, os boletos não param de chegar e… (complete aqui com o seu drama pessoal).

Bom, nesse caso, você vai mesmo precisar ter muita força de vontade para dar conta de seus desafios. Só que, ao contrário do que provavelmente o seu remorso diz, essa tal de força de vontade não é infinita, sabe? Ela não está e, não importa o que você faça, não vai estar sempre à sua disposição. É uma falácia – bastante lucrativa – quererem que você acredite no contrário. E agora que você sabe disso, o que fazer a respeito?


  • Em A Única Coisa, os autores fazem uma interessante comparação entre a força de vontade e a bateria do nosso celular: “toda manhã você começa com a carga total. Conforme o dia passa, sempre que você a emprega, ela diminui um pouco. Então, conforme a barrinha do celular vai diminuindo, o mesmo acontece com sua determinação, e quando ela fica totalmente vazia, você já era. A força de vontade tem carga limitada, mas pode ser recarregada com um pouco de descanso. É energia limitada, porém renovável”. Ou seja, durma, descanse, faça pausas. Recarregue sua bateria!
  • Além disso vale dizer que a bateria do seu celular se alimenta de energia elétrica assim como sua força de vontade se alimenta de comida. Isso mesmo. Chocolate e cafeína podem dar uma animadinha aqui e ali, mas a longo prazo carboidratos complexos e proteínas podem ser melhores aliados à manutenção da sua perseverança.
  • Nem todo organismo está no seu melhor momento ao mesmo tempo. É por isso que o movimento Slow prega o reconhecimento e o respeito aos seus próprios ritmos naturais. Qual o momento do dia em que você está pleno de energia? E criatividade? Capacidade de concentração? Aprenda a escutar seu corpo e então use essas informações a seu favor. Reserve seu período de máxima força de vontade para suas prioridades ou aquela tarefa mais espinhosa, o desafio mais difícil de resolver.
  • De acordo com Gary Keller e Jay Papasan, entenda que “como seu estoque tem limites, cada atitude que você toma e que depende do poder de sua força de vontade deve ser bem avaliada: ganhar numa situação imediata por meio da força de vontade o torna mais perto de perder depois, quando estará com menos energia. Passe o dia cruzando trincheiras e a tentação dos lanchinhos noturnos pode se tornar um problema na sua alimentação”. Não se pode ganhar todas. Escolha suas batalhas com sabedoria.

Ainda, quero compartilhar com você dois paradoxos relativos à força de vontade.

  1. Quando nossa determinação vai diminuindo, nós passamos a agir no piloto automático, ou seja, somos tomados pelos nossos hábitos já arraigados. Portanto, quando melhor for a qualidade da nossa rotina já estabelecida, melhor será nossa qualidade de vida em momentos de baixa energia. O paradoxo é que precisamos de força de vontade para construirmos hábitos mais eficientes.
  2. É preciso ter força de vontade para cuidar da nossa força de vontade.

Seria então o caso de primeiro usarmos nossa energia para defender descanso e alimentação de qualidade? Cultivarmos padrões mais eficientes para nossas respostas inconscientes às demandas da vida? Alicerçarmos nossas bases para só então alçarmos voos mais altos? Essa resposta é pessoal e intransferível.

Slow hug, ou seja, um abraço muito lento, carinhoso e aconchegante, e até breve!

Val

P.S.: Se você tem vontade de se juntar ao Slow Movement, mas não vê como se aproximar dessa ideia em termos práticos, te convido a conhecer esse projeto.

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