Frases que me cansam: desacelere!

PorOpinião

16 abr 2021
Foto: divulgação

Não é culpa nossa nem de ninguém vivermos coletivamente na época da competição e da insegurança no trabalho. Não é culpa nossa que, com frequência, fiquemos tão estressados”. Trecho do livro Calma – The School of Life


Olá!

Agora que já te contei do que se tratam AS FRASES QUE ME CANSAM, vamos conversar sobre a primeira delas?

DESACELERE!

Assim, no imperativo e com uma exclamação no final mesmo.

Mas peraí, Valéria. Você não tinha contado pra mim que você mesma há anos vinha desacelerando a própria vida? Você não tinha dito que no final de 2019 formar uma comunidade desacelerada passou a ser um dos seus objetivos de vida? Você mesma não se apresenta como uma das divulgadoras do movimento Slow no país?

Sim – eu disse tudo isso e é verdade. Mas segura aí, vamos juntos dar um rolê por parte da nossa história e então finalmente chegar ao DESACELERE! que me cansa.

Em primeiro lugar vale dizer que a desaceleração não é um assunto recente. Minhas pesquisas, até o momento, me levaram até 3 séculos antes de Cristo. Vários filósofos da antiga já falavam sobre esse tema que, aparentemente, nunca deixou de ser pertinente. Quer uma amostra? O estoicismo, que foi uma das escolas filosóficas mais ativas, versou sobre assuntos correlatos ao ócio (uso racional do tempo livre), ao respeito e identificação com os ritmos da natureza, à diferenciação entre o que podemos ou não controlar. Alexandre Pires Vieira, um tradutor de várias obras de Sêneca, explica que “no fundo, o ócio, para o filósofo, não é apenas uma questão de ter tempo para descansar e realizar atividades relaxantes. É um aspecto crucial da própria vida, sem o qual não temos tempo nem energia para pensar, sendo assim forçados pelas circunstâncias a viver uma vida menos útil e realizadora do que de outra forma.”

Até mesmo o discurso cristão – largamente baseado na abnegação, no servir e no trabalho como fonte de dignidade – encontra na própria Bíblia referências sobre assuntos relacionados à desaceleração aqui e ali. “Tudo neste mundo tem o seu tempo, cada coisa tem a sua ocasião”, por exemplo, é uma passagem de Eclesiastes, parte do Velho Testamento.

Mas vamos nos adiantar um pouquinho mais. Vamos agora para meados dos anos 80 quando o médico americano Larry Dossey criou a expressão “doença do tempo” para se referir à suposição obsessiva de que “o tempo está fugindo, vai acabar faltando e é preciso estar sempre pedalando cada vez mais rápido para não perder o trem” e quando Carlo Petrini fundou na Itália o movimento Slow Food cujo manifesto prega ideais como os de “que nos sejam garantidas doses apropriadas de prazer sensual e que o prazer lento e duradouro nos proteja do ritmo da multidão que confunde frenesi com eficiência”. Porque foram as reflexões – e ações – em torno do ato de comer e toda sua cadeia produtiva que influenciaram e deram impulso à conversa sobre desaceleração como um todo: parece ser consenso dizer que, para a nossa geração, foi a partir da concepção do Slow Food que o pé no freio ganhou visibilidade. A partir de então vários outros setores da economia começaram, em maior ou menor escala, a serem repensados. Surgiram movimentos paralelos como o Slow Fashion na moda, o Slow Beauty na cosmética e até mesmo o sexo e o urbanismo foram contemplados, respectivamente com o Slow Sex e o Slow City. Até que chegamos, por fim, a um conceito menos compartimentalizado: a Slow Life.

Mas slow, ou seja, devagar, e até mesmo desacelerar, palavras que andam juntas e são carregadas de tremendo significado negativo na nossa cultura, quando expandidas para o contexto mais amplo da Slow Life, significam o que exatamente? Como escrevi para o livro Metamorfoses da Maturidade, “eu diria que Slow Life se refere a uma busca cuidadosa por mais qualidade de vida. Por mais resultados concretos naquelas esferas que de fato nos fazem sentido. É usar o tempo a nosso favor ao invés de sair distribuindo-o (e quiçá desperdiçando-o) em tarefas, relacionamentos ou quaisquer assuntos que não comunguem diretamente com nossas próprias e muito bem deliberadas escolhas. É até mesmo agir em velocidade rápida quando e se necessário, mas com maior e mais responsável domínio do velocímetro. Significa encontrar – e desfrutar – o real prazer em viver. Não um prazer qualquer, hedonista ou desprovido de intenção. Um prazer mais maduro, em paz consigo, com o tempo e com o universo”. Ou seja, ser Devagar não quer dizer necessariamente ser devagar.

Pois bem. Até aqui, tudo lindo. Aposto que você também ficou achando que desacelerar é o máximo, né? Então chegamos a 2020. Muitos de nós cheios de esperança político-econômica, mas em contrapartida dizendo que estamos exaustos quase tanto quanto dizemos bom dia. Sentindo vergonha de assumir que precisamos descansar. Vergonha de dizer não, de admitir que não estamos dando conta, que precisamos de um tempo. Socialmente, ser guerreiro é a pedra fundamental da personalidade que é esperada de cada um de nós – não importa quanto custe.

Aí, como se isso tudo não fosse suficiente, ganhamos uma pandemia de presente. E você se lembra de que nos primeiros dias de isolamento fomos solapados por centenas, milhares de propostas do que fazer com o “tempo livre” que muitos pensaram que teriam? Afinal de contas, a gente precisa sempre fazer alguma coisa, né? No livro Sociedade do Cansaço Byung-Chul Han, um filósofo que é nosso contemporâneo, começa nos contando que cada época apresenta suas próprias epidemias e que, para ele, as doenças mentais definem o século 21, a era do desempenho. De acordo com ele “o sujeito-desempenho […] doa a si mesmo a essa liberdade compulsiva – isto é, a livre coação de maximizar seu desempenho. O excesso de trabalho e performance aumenta e se transforma em autoexploração. Isso é mais eficiente do que a exploração alheia, uma vez que há uma sensação de liberdade ali. O explorador é também o explorado. O perpetrador e a vítima não podem mais ser distinguidos.” Como bons sujeitos-desempenho que fomos treinados a ser, deveríamos aproveitar toda e qualquer oportunidade para melhorar ainda mais a nossa performance… hum… sei…


Confesso que me surpreendeu o fato de que rapidamente a galera foi percebendo que lançar mais e mais propostas do que fazer no “tempo livre” não era bem o caminho e o discurso foi então alterado para o DESACELERE! E é exatamente esse DESACELERE! que me cansa. O DESACELERE! que virou pandemia durante a pandemia e que faz com que quem lê pense algo como “Ok. Agora se não bastasse dar conta de tudo o que eu já tenho que fazer, eu ainda tenho que desacelerar. Que P*?!@ é essa? Não tinham mais nada para inventar? Esse é o novo modus operandi e se eu não me encaixar nesse novo padrão, tenho mais uma nota de corte para esfregar na minha cara o meu fracasso como ser humano”.

Ahhhhh!

Cansaçooooo!

Nos pelo menos dez anos em que venho estudando sobre simplicidade voluntária, minimalismo, desaceleração e afins nunca vi nada igual em termos de divulgação do movimento Slow, mas não consigo achar super legal toda essa exposição nesse contexto específico. Num momento em que a vida da grande maioria das pessoas, que já não estava lá muito saudável, virou de ponta-cabeça, em que o modo sobrevivência foi ativado em massa, não te parece meio inconveniente surgir com qualquer verbo no imperativo, ainda mais sem embasamento e muitas vezes sem o menor contexto? Até mesmo um verbo que é teoricamente cheio de compaixão? Supor que é simples ou até mesmo indolor sair da pressa internalizada para o equilíbrio e quiçá a iluminação não te parece uma pressão extra?

Eu reconheço que apesar do desacelerar a princípio ter caído de paraquedas no nosso colo em 2020, é claro que isso veio acompanhado por alguns pontos positivos inegáveis, subtraindo-se o contexto tenebroso. Por exemplo, nunca discutimos tão abertamente sobre saúde mental, o equilíbrio entre o descanso e a produtividade, os limites entre vida pessoal e profissional ou sobre os benefícios e malefícios do home office na prática. Ah, e claro, sobre a importância do namastê, mas também do vai se fudê – adoro! Mas no âmbito do indivíduo, muitas dessas conversas infelizmente são ainda apenas conversas. Porque, só para começar, a aceleração e seus tentáculos são um problema estrutural. Aliás, só mais um dos vários com os quais precisamos conviver, mas sobre isso vou desabafar em mais detalhes na próxima coluna, combinado?

Mas então, quando passamos a régua, o que nos resta?

Desacelerar.

Enfim, a hipocrisia.

Entretanto, feliz ou infelizmente, é sério. No frigir dos ovos, nos resta compreender que a culpa pela aceleração pode até não ser nossa, que a solução concreta e ideal pode até não estar em nossas mãos, mas ao mesmo tempo experimentar esse entendimento sem cair nas armadilhas da vitimização ou da desesperança. E além de terapia, o melhor caminho para isso, até onde eu possa vislumbrar, é desacelerar. Mas em letras minúsculas, sem imperativos, sem exclamação no final. Com a sobrevivência garantida e uma boa dose de gentileza e generosidade para temperar a receita.

Slow hug, ou seja, um abraço muito lento, carinhoso e aconchegante, e até breve!

Val

P.S.: Se você tem vontade de desacelerar, mas não vê como se aproximar dessa ideia em termos práticos, te convido a conhecer esse projeto.

Valéria Chociai

*Valéria Chociai é co-autora do livro METAMORFOSES DA MATURIDADE e seu tempo é dividido entre a facilitação da jornada vivencial 365 CONVITES PARA DESACELERAR, a formação em Psicossíntese pelo Centro de Psicossíntese de São Paulo, a divulgação da Slow Life e a desaceleração radical de sua própria vida através da vivência do segundo de seus 3 anos de sabático, levemente reformulados por causa dessa tal de pandemia.

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