Frases que me cansam: desacelerar é só para os privilegiados

PorOpinião

14 set 2021

É realmente possível desacelerar?

Trilhar um caminho próprio, mais natural e fluído?


*Valéria Chociai

Como já comentei com você na minha coluna inaugural hoje tenho 43 anos, mas foi por volta dos 30 que descobri que aquele ideal de “família feliz de comercial de margarina” não era o único padrão de sucesso possível.

E sim, eu sei que pode parecer óbvio para alguns, mas para a minha realidade foi uma tremenda revelação.

Aconteceu enquanto lia um romance autobiográfico e lembro claramente que cinco palavras marcaram de forma indelével minha alma que um dia já foi paulistana: comunidade, natureza, tempo, simplicidade e prazer.

Só que é claro que apesar da epifania minha realidade não se transformou do dia para a noite.

Hoje, além de tentar responder aos questionamentos iniciais, vim te contar especificamente sobre um dos comentários que ouvi repetidas vezes enquanto ia redesenhando os contornos mais expressivos da minha vida:

Valéria, para você é fácil desacelerar e viver mais alinhada com seus valores, com sua autenticidade – para não dizer excentricidade – por causa de todos os seus privilégios.

Sem qualquer hipocrisia ou mesmo modéstia, reconheço e faço questão de honrar esses tais privilégios.

Sei que o fato de ser branca, ter formação de primeira linha e, principalmente, alguma estabilidade financeira, me coloca numa posição bastante mais confortável do que a grande maioria da nossa população.

Ainda assim, tal observação e suas pequenas variações sempre me desceram quadrado.

Em primeiro lugar, porque não foi nem um pouco fácil. N-E-M U-M P-O-U-C-O.

Exigiu uma dose cavalar de autoconsciência, amor-próprio, organização e, principalmente, coragem.

Exigiu também que a vida me desse uma ou duas rasteiras no meio do caminho, claro, porque nem vidas privilegiadas são cor-de-rosa, não é mesmo?

Entretanto, meu incômodo crescia regado também pela minha falta de crença de que apenas os ‘mais favorecidos’ poderiam encontrar um modo de vida mais sintonizado com seus próprios ritmos, valores e aspirações.

Então, porque não sou garota de ficar choramingando pelos cantos, apesar de não ser cientista ou pesquisadora, em junho de 2020 resolvi tirar a prova dos nove.

O desconforto cutucou minha curiosidade e ambos me levaram a fazer um estudo com 50 pessoas que afirmam que conseguiram desacelerar suas vidas.

Como desacelerar

Para ficar claro, o termo desacelerar nesse contexto tem raiz no movimento slow, sobre o qual já comentei aqui, e, como disse Carl Honoré, um dos mais prolíficos pesquisadores e divulgadores do tema na atualidade:

“A filosofia Slow não é fazer tudo a um ritmo de caracol. Trata-se de tentar fazer tudo à velocidade certa. Saboreando as horas e minutos em vez de apenas contá-los. Fazendo tudo o que for possível, em vez de ser o mais rápido possível. É sobre ter qualidade em detrimento da quantidade em tudo, desde o trabalho até a comida e a criação dos filhos.”

Pois bem, saí então à caça de pessoas a mim desconhecidas, com as mais variadas histórias e backgrounds, homens, mulheres, brancos, negros, orientais, imigrantes, nativos, jovens e maduros, cinco classes sociais.

Elaborei um questionário gigantesco e depois que recebi as respostas ainda entrevistei cada uma dessas gentilíssimas pessoas para elucidar alguns pontos que não ficaram claros.

Terminei esse estudo no início de setembro e, não muito satisfeita, já que meu perfeccionismo achava que 50 pessoas era uma amostragem pequena, entre o final de setembro e meados de novembro dobrei o número de pesquisados.

Enquanto ia dissecando os dados que tinha em mãos, as semelhanças entre as respostas saltaram aos olhos.

Apesar de cada relato e trajetória serem únicos, existe uma linha mestra que pode ser modelada.

Ou seja, podemos nos inspirar nela como um passo a passo para atingirmos nós mesmos esse estado mais orgânico, caso seja de nosso interesse. E qual é essa linha mestra?

  • Dizer um maiúsculo BASTA ao ritmo muitas vezes frenético em que se está inserido. 100% dos entrevistados se referem a um momento específico em que ‘a chave virou’. Lamentavelmente, 96% admitem que foram motivados por algum tipo de trauma, como a perda de um emprego, um relacionamento rompido ou um problema de saúde.
  • Apenas 1 pessoa meditava periodicamente e 94% citam que não tinham uma relação íntima com qualquer forma de espiritualidade. Nem mesmo aqueles que frequentavam algum tipo de culto religioso. Por outro lado, 99% diz que durante o que escolhi chamar de ‘processo contínuo de desaceleração’, uma espiritualidade mais genuína foi desenvolvida. 68% dos entrevistados passaram a meditar ou praticar com frequência alguma atividade relacionada ao mindfulness. 32% adotaram a ioga como atividade física regular. Uma senhora de 63 anos, viúva, conta que encontrou na dança sua forma de conexão com o divino.
  • 74% dizem que começaram a priorizar suas necessidades básicas como sono, alimentação e exercícios físicos.
  • 74% também relatam que, com maior ou menor grau de dificuldade, passaram a se colocar em primeiro lugar. Colocaram em prática o entendimento de que é impossível agradar a todos e adotaram medidas para administrar o receio de dizer NÃO quando e se necessário. Além disso, buscam ainda minimizar a influência da opinião alheia em suas vidas.
  • 92% se reconhecia como perfeccionista antes de ‘mudar de vida’. Atualmente apenas 53%. Desses, todos dizem que mudaram sua abordagem ao que chamam de perfeccionismo. O tal do ‘feito é melhor que perfeito’ apareceu em 28 respostas abertas.  
  • 66% entendem que melhoraram suas relações com o trabalho. 21% diziam estar se programando para algum tipo de transição de carreira nos próximos 3 anos e 10% encontravam-se formalmente desempregados. Como contei a Confúcio, fui surpreendida com o fato de 8 pessoas comentarem que não buscam mais realização pessoal no trabalho. Para elas, este passou a ser apenas uma bem-vinda fonte de renda. Contam que não mais se cobrarem por não trabalharem ‘com o que amam’ lhes tirou um peso das costas. 28% mudaram de emprego ou carreira, aceitando rendas menores em troca de mais qualidade de vida. Entre os entrevistados empregados, apenas 7% tiveram sua renda aumentada desde que iniciaram seus ‘processos contínuos de desaceleração’. Entretanto nenhum acredita que gostaria de rendimentos superiores se isso significasse mais horas de trabalho, mais pressão ou stress. E todos consideram levar uma vida digna com a renda familiar atual, que no âmbito dessa pesquisa variou de 430 a aproximadamente 18.000 reais mensais por pessoa.
  • E falando em dinheiro, 93% relatam que em algum momento tomaram as rédeas da sua gestão financeira. 82% contam que aprender a se planejar de forma eficiente foi fundamental para a melhoria de seu bem-estar, mesmo que alguns ainda se encontrassem endividados. No passado, 74% não tinha ideia de quanto gastava por mês. Dos endividados, a totalidade não conhecia o tamanho exato das suas dívidas. Por outro lado, graças ao controle financeiro mais assertivo, daqueles 28% que te contei que mudaram de emprego ou carreira aceitando rendas menores, apenas 2 pessoas relatam considerar terem diminuído seu padrão de vida.
  • 33% dos entrevistados diz ter adotado o minimalismo como filosofia de vida. E 76% diz que substituiu a compra de bens materiais pela de experiências, principalmente viagens – o que para mim não deixa de ser uma atitude minimalista, não é mesmo?
  • No campo bem prático, 27% das pessoas dizem que de alguma forma melhoraram sua locomoção. Algumas deixaram de usar o carro particular enquanto outras passaram a usá-lo. Algumas se mudaram para mais perto do trabalho, outras para cidades com menos trânsito. Algumas ainda tiveram a oportunidade de flexibilizar seus horários. Aqui vale ressaltar que essa foi uma pergunta relativa ao período pré-pandemia.

Não sei para você, mas até aqui poucas coisas me admiraram – parece que é tudo mais do mesmo. Óbvio. Clichê. Já vimos e ouvimos muito sobre todas essas coisas. Os resultados são semelhantes a vários outros estudos que já li sobre felicidade, qualidade de vida, envelhecimento saudável e por aí vai. Então por que essas pessoas que sondei conseguiram atingir o estado desacelerado desejado e muitos de nós não? Talvez a resposta apareça agora.

  • Para 93% dos entrevistados, de alguma forma desacelerar virou um projeto de vida. Porque afinal de contas reconhecer a obviedade das informações infelizmente está longe de significar praticá-las, concorda? Para alguns, o plano inclusive deixou de ser pessoal. Tornou-se familiar. E os projetos se desenvolveram das mais variadas formas, muitas vezes equilibrando ações de curto, médio e longo prazo. Uns de forma estruturada, outros mais organicamente. Alguns ainda com pressa, outros já respeitando um pouco mais seus ritmos e possibilidades. Cada um, entretanto, atendendo as demandas que faziam sentido para si.

Espero que minhas palavras possam ser encontradas como a um farol. Nesse momento em que DESACELERE! virou mantra propagado aos quatro ventos, muitas vezes de forma leviana e, porque não dizer, irritante, minha intenção não é maior do que compartilhar o resultado do que descobri a partir das minhas inquietações pessoais.

Então, respondendo às perguntas iniciais dessa conversa, é sim possível desacelerar e trilhar um caminho próprio, mais natural e fluído. Respondendo ao meu próprio dilema, não, desacelerar não é necessariamente apenas para os super privilegiados. Apesar de sempre gostar de deixar muito claro que a aceleração é mais um dos vários problemas estruturais que enfrentamos atualmente, a desaceleração, em contrapartida, é um estilo de vida que está à disposição de muitos daqueles que se dispõe a individualmente questionar o status quo e trilhar de forma efetiva esse novo caminho. Só não digo que está à disposição de todos uma vez que a totalidade dos meus entrevistados tinha um teto para viver e comida em suas mesas – o que cruelmente já pode ser considerado um privilégio em nosso país.

Slow hug, ou seja, um abraço muito lento, carinhoso e aconchegante, e até breve!

Val


Valéria é co-autora do livro METAMORFOSES DA MATURIDADE e atualmente mima copiosamente sua filha de 4 patas, Maria Mole. Seu tempo restante é dividido entre a facilitação da jornada vivencial 365 CONVITES PARA DESACELERAR, a formação em Psicossíntese pelo Centro de Psicossíntese de São Paulo, a divulgação da Slow Life e a desaceleração radical de sua própria vida através da vivência do segundo de seus 3 anos de sabático, levemente reformulados por causa dessa tal de pandemia. De Figueira, mas parida em Ibaiti e registrada em Curiúva, não é de se admirar que tenha rodinhas nos pés e esteja em busca de uma vida nômade mesmo aos 43 anos de idade”.

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